_____Ouroboros

Agosto 20, 2006

Originalmente publicado em 19 de Novembro de 2003.

Olhos fechados debaixo do chuveiro. Pressão leve no topo da cabeça, como as pontas dos dedos de uma mão. Você e o barulho da água no azulejo. Quando respirou, a água entrou pelo nariz. Você sentiu o cheiro daquele ar mais grosso. Era água. Mas era o cheiro da pele de dentro do seu nariz.

Você fechou os olhos esperando a dor, mas não sentiu nada, a água estava nos seus pulmões. A água era os seus pulmões e, por um instante, você lembrou.

Mas depois já era tarde, não era mais memória. O banho, o barulho se dissolviam, as palavras começaram a se diluir. A água tomou conta de tudo. Você era a água, até que, aos poucos esquecia o nome dela também.

Olhou para baixo e a luz era fraca, em tons de rosa. Como quando se olha para o Sol com os olhos fechados. Você era mais nada, era tudo. Flutuava. E tudo era o cheiro da pele de dentro do seu nariz.


_____Olhos abertos, boca fechada

Agosto 20, 2006

Originalmente publicado em 03 de Novembro de 2003.

Na segunda vez que precisar de silêncio, não mergulhe. Essa água toda aí é vazio.

Mas que vazio é esse, que lavo as vestes negras e a tinta que sai é vermelha? É sangue diluído, não o vinho que me prometeram.

Que vazio é esse que vibra a música ainda viva e faz lembrar da nossa eterna surdez para o que não se repete, para o que não é música?

É só um pouco de vazio, só isso.

Só uma fração de tempo em que não se pode usar mais as palavras de antes para falar dessas coisas de agora.

Isso porque esperei muito. Mas agora só preciso chegar aqui, chegar de corpo inteiro.

Vou ter tempo depois para cansar e querer fugir.

A obsessão é o meu primeiro defeito. Defeito-raiz, mãe de todos os outros. Mãe assim, no masculino. Mãe com falo, com espada na mão.

Lembra de quando você acorda, do tempo que demora para chegar em si? Então, é assim. Só espera mais um pouco e tudo volta ao normal.

Só não espere por mim.


_____Seguindo Perseu

Agosto 20, 2006

Originalmente publicado em 11 de Dezembro de 2003.

Aqueles cachorros sem dentes e de olhos arregalados espremem expressões no couro vermelho do rosto. Tentam expulsar rosnados e latidos, mas nada sai da superfície plana, imóvel. A tinta, há muito seca, e os vermelhos cada vez mais irmãos dos marrons.

Se desse dois passos para trás, você veria a tela inteira, lisa como o mármore embaixo dos seus pés. Mas você se aproxima do centro desse Leviatã, essa boca do inferno, queimada com pincel de fogo, ainda sem acreditar que esse vulcão de expressões deformadas, derretidas, tem a mesma profundidade que o vaso de metal com flores secas da sala anterior.

Esse imenso vazio de uma sala reservada para um quadro só, paredes negras e a rubra imponência de um fim de tarde. Como na sua infância. Aquela hora que você tremia do terror pela noite tão próxima, tão descendo do céu como uma neblina negra. O grito das cigarras, ensurdecedor. O Sol foi embora. Você, sozinho e cego.

Caminhar não adianta. Buscar o mesmo terror no rosto de outros como conforto, para se sentir menos só. Não adianta. Você começa então a procurar para dentro, nas memórias, algum fragmento perdido que se encaixe, a Pedra de Roseta entre esse horror vermelho e a sua pulsação.

Você tenta buscar talvez em um anoitecer de verão de céu vermelho e roxo o buraco para pular atrás desse coelho branco, desse gato negro imenso e insuportável como um capacete de metal frio.

Concentração. Você espera até que as pulsações quebrem em ondas menores, mais amenas. Espera até que a pele esfrie, como se você passasse a ocupar uma parte cada vez menor do próprio corpo. O corpo vai morrendo, esfriando, deixando sobrar um fio de atenção nascendo dos olhos.

“É esse o elo?” Você olha para a porta que o separa da luz amarelada, das paredes bege e daquela infinidade de pinturas iguais, que de natural pouco têm, a não ser um “natureza” encrustado no nome. Agora você entende porque, morta.

Uma mancha verde que piscou pela sua atenção no meio daquela espiral vermelha agora cresce. Um luminoso verde, um ponto ao longe daquele terrível festival de vermelhidão, aquela fogueira de rostos, patas, homens de expressões animalescas e animais de expressões humanas. Na porta entre dois universos, a inscrição: Saída.


______Dos vaga-lumes conceituais

Agosto 19, 2006

Originalmente publicado em 15 de Agosto de 2003, sob o título “Enfim”.

Cada fósforo
que acende um sonho
queima um dedo.


______Sopa de letrinhas

Agosto 19, 2006

Originalmente publicado em 25 de Novembro de 2003, sob o título “Diamantes nas mãos”.

Sinestesia, a chamavam, ela de cabelos laranja. Naquele tempo, ainda era uma menina. Mas ainda, as bordas dos continentes eram todas de pedra. Ainda, não havia areia pra contar o tempo.

E com aquele jeito delicado de quem sai dando saltos atrás de um filhotinho de gato, ela obriga você a voltar a si, a perguntar que tipo de memória eu vou ser capaz de guardar essa sopa de arrepio e som para lembrar o que foi ver seus cílios laranja, verde e laranja e branco no fundo.

Eu ouvi que o seu olhar é vazio, mas é difícil dizer quando é você que mistura tudo: os sons à pele, Eu sou uma sopa, eu disse, e só lembro que pensei. Pensei em limão e o som de um cano de metal com água: oco e água, como se as ondas fossem também prateadas. Aquilo era ácido, aquele gosto, aquele som, aquela cor. Aquilo era uma pirâmide de nervos para dentro de mim.

Eram três e por isso eu não sabia de onde vinham e nem podia saber onde guardar uma coisa só, para lembrar assim, como um bebê que sente na boca toda mucosa sem dentes a primeira maçã. Casca de limão e os estalos, eco, mas é sempre um pedaço só, Falta amarrar tudo num único momento, fazer da areia pedra de novo.

E depois dela, a maçã é que volta a não ser mais maçã, mas a massinha areia doce ácida e casca e todas aquelas coisas que a língua sente. Volta a ser uma: não é maçã, não é vermelha, não é nada, é só o que é ali. Sinestesia, ela é um orgasmo, mas não é um grito. É um momento que você sabe que é momento. “Ah, um orgasmo”, lembrando que o único erro, mesmo, foi achar que se podia dar nome às coisas.


______Apresentação (ou borboletagens)

Agosto 19, 2006

Essa é a reedição de um antigo blog, chamado Casulo, que durou uns dois ou três anos. Depois, por conta de chamadas da ‘vida real’ e de algumas dificuldades em organizar as publicações na internet, o projeto ficou parado. Até que foi eliminado pelo antigo provedor.

Definir o que ele era é uma tarefa difícil. Melhor começarmos por outro caminho: o texto de apresentação feito na época.

Ainda ali, as imagens. Flutuantes, desde quando grãos de pólen sorridentes, riam, mordiam, até virar vapor. E quase brancas, quase invisíveis então, negaram parte a qualquer quebra-cabeça.

Eu lhes pergunto agora para quê, então, tanto tempo estudando. Recontando mitologias. Para que sonhar, então, ou rever, mergulhar, para quê, me digam, para quê andar em círculos?

Lembro do tempo em que as coletava em uma cesta de palha, como folhas verdes, ainda úmidas, para lhes fazer abrigo, proteger. Levei-as enquanto caminhava e falá-las, descobri, não as gastava.

Até que aos poucos, na cesta mais não cabiam e se despejaram para o chão, para a terra, e criaram raízes.

Ali, tudo o que eu tinha que fazer era cuidar e retirar meus pés de seu caminho para cima. Aí, descobri. Continuei caminhando. Era sol da manhã esse tempo todo. E eu podia andar de mãos vazias contanto que lembrasse seus nomes.

Mas já não passou muito tempo, e mesmo só memória agora também já pesa. Pede chão, pede raiz, pede raiz nos pés dos outros. Pede não mais ser solta: ser lida e ser compreendida. Pede para ser palavra dada.

Acabou-se então, o tempo de jogá-las para o alto, como confetes. Ou soprá-las como bolhas de sabão.

Esses textos continuam vivos.

Com pequenos acertos, algumas modificações, mas ainda cheios de significado. São idéias que merecem estar abertas e serem vistas, pensadas, deglutidas, comentadas, e quem sabe até inspirar algum desavisado que tropece por aqui.

Futuramente, textos novos também vão começar a aparecer. Aguardem.

Ah, e sejam bem-vindos.