Originalmente publicado em 25 de Novembro de 2003, sob o título “Diamantes nas mãos”.
Sinestesia, a chamavam, ela de cabelos laranja. Naquele tempo, ainda era uma menina. Mas ainda, as bordas dos continentes eram todas de pedra. Ainda, não havia areia pra contar o tempo.
E com aquele jeito delicado de quem sai dando saltos atrás de um filhotinho de gato, ela obriga você a voltar a si, a perguntar que tipo de memória eu vou ser capaz de guardar essa sopa de arrepio e som para lembrar o que foi ver seus cílios laranja, verde e laranja e branco no fundo.
Eu ouvi que o seu olhar é vazio, mas é difícil dizer quando é você que mistura tudo: os sons à pele, Eu sou uma sopa, eu disse, e só lembro que pensei. Pensei em limão e o som de um cano de metal com água: oco e água, como se as ondas fossem também prateadas. Aquilo era ácido, aquele gosto, aquele som, aquela cor. Aquilo era uma pirâmide de nervos para dentro de mim.
Eram três e por isso eu não sabia de onde vinham e nem podia saber onde guardar uma coisa só, para lembrar assim, como um bebê que sente na boca toda mucosa sem dentes a primeira maçã. Casca de limão e os estalos, eco, mas é sempre um pedaço só, Falta amarrar tudo num único momento, fazer da areia pedra de novo.
E depois dela, a maçã é que volta a não ser mais maçã, mas a massinha areia doce ácida e casca e todas aquelas coisas que a língua sente. Volta a ser uma: não é maçã, não é vermelha, não é nada, é só o que é ali. Sinestesia, ela é um orgasmo, mas não é um grito. É um momento que você sabe que é momento. “Ah, um orgasmo”, lembrando que o único erro, mesmo, foi achar que se podia dar nome às coisas.