Originalmente publicado em 19 de Novembro de 2003.
Olhos fechados debaixo do chuveiro. Pressão leve no topo da cabeça, como as pontas dos dedos de uma mão. Você e o barulho da água no azulejo. Quando respirou, a água entrou pelo nariz. Você sentiu o cheiro daquele ar mais grosso. Era água. Mas era o cheiro da pele de dentro do seu nariz.
Você fechou os olhos esperando a dor, mas não sentiu nada, a água estava nos seus pulmões. A água era os seus pulmões e, por um instante, você lembrou.
Mas depois já era tarde, não era mais memória. O banho, o barulho se dissolviam, as palavras começaram a se diluir. A água tomou conta de tudo. Você era a água, até que, aos poucos esquecia o nome dela também.
Olhou para baixo e a luz era fraca, em tons de rosa. Como quando se olha para o Sol com os olhos fechados. Você era mais nada, era tudo. Flutuava. E tudo era o cheiro da pele de dentro do seu nariz.