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_____Seguindo Perseu

Agosto 20, 2006

Originalmente publicado em 11 de Dezembro de 2003.

Aqueles cachorros sem dentes e de olhos arregalados espremem expressões no couro vermelho do rosto. Tentam expulsar rosnados e latidos, mas nada sai da superfície plana, imóvel. A tinta, há muito seca, e os vermelhos cada vez mais irmãos dos marrons.

Se desse dois passos para trás, você veria a tela inteira, lisa como o mármore embaixo dos seus pés. Mas você se aproxima do centro desse Leviatã, essa boca do inferno, queimada com pincel de fogo, ainda sem acreditar que esse vulcão de expressões deformadas, derretidas, tem a mesma profundidade que o vaso de metal com flores secas da sala anterior.

Esse imenso vazio de uma sala reservada para um quadro só, paredes negras e a rubra imponência de um fim de tarde. Como na sua infância. Aquela hora que você tremia do terror pela noite tão próxima, tão descendo do céu como uma neblina negra. O grito das cigarras, ensurdecedor. O Sol foi embora. Você, sozinho e cego.

Caminhar não adianta. Buscar o mesmo terror no rosto de outros como conforto, para se sentir menos só. Não adianta. Você começa então a procurar para dentro, nas memórias, algum fragmento perdido que se encaixe, a Pedra de Roseta entre esse horror vermelho e a sua pulsação.

Você tenta buscar talvez em um anoitecer de verão de céu vermelho e roxo o buraco para pular atrás desse coelho branco, desse gato negro imenso e insuportável como um capacete de metal frio.

Concentração. Você espera até que as pulsações quebrem em ondas menores, mais amenas. Espera até que a pele esfrie, como se você passasse a ocupar uma parte cada vez menor do próprio corpo. O corpo vai morrendo, esfriando, deixando sobrar um fio de atenção nascendo dos olhos.

“É esse o elo?” Você olha para a porta que o separa da luz amarelada, das paredes bege e daquela infinidade de pinturas iguais, que de natural pouco têm, a não ser um “natureza” encrustado no nome. Agora você entende porque, morta.

Uma mancha verde que piscou pela sua atenção no meio daquela espiral vermelha agora cresce. Um luminoso verde, um ponto ao longe daquele terrível festival de vermelhidão, aquela fogueira de rostos, patas, homens de expressões animalescas e animais de expressões humanas. Na porta entre dois universos, a inscrição: Saída.